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O Chato

Alguns negam, outros não sabem. Alguns mais, outros menos. Todos somos chatos!

Uns perdem a virgindade; outros, a razão. O povo? A soberania!

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Três episódios:

1. “A Arena Fonte Nova pode ficar sem acarajé. A venda do tradicional bolinho, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial, é caracterizada como comércio ambulante. A Fifa recomenda o afastamento dessa modalidade de comércio num perímetro de até dois quilômetros das praças de jogos. O acarajé, em tese, não pode ser concorrente dos hambúrgueres produzidos pela rede McDonald’s, patrocinadora oficial da Fifa”. (aqui);

2. “Na manhã desta sexta-feira, a prefeitura da Capital pediu à Vonpar, empresa que representa a Coca-Cola, informações sobre a possibilidade de consertar o mascote da Copa ou substituir o tatu-bola derrubado por manifestantes durante confronto com a Brigada Militar na noite da quinta-feira, no Largo Glênio Peres.” (aqui, com vídeo);

3. Imposição autoritária de nomes para a bola, as corneta, o mascote e seu nome (fontes aos montes na net).

Uma análise:

O Brasil tem inteligência suficiente para saber aproveitar toda a infraestrutura que está sendo construída em função da Copa do Mundo. Não me alinho aos que são contra, pura e simplesmente – com argumentos de que esse dinheiro todo poderia ser investido em escolas, em saúde, etc. – que a copa seja realizada no Brasil.

Existem, no entanto, investimentos que não requerem aporte financeiro e que trariam um ganho enorme para a cultura brasileira. Sequer falo de quem vive disso, de tão óbvio que é o ganho das pessoas, do comércio em geral, com a copa. Quando um bolinho, tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Imaterial é ameaçado de ser afastado (e será) das proximidades de um local onde teria enorme visibilidade turística, forçosamente perdemos nossa virgindade, a pureza que pensávamos ter em relação à nossa cultura. Descobrimo-nos deflorados, simplesmente estuprados por uma multinacional, tão somente – e esse é o sentido da virgindade -, tão somente por imaginar que a Fifa apenas “passaria a mão”.

Da mesma forma, outra multinacional, a pretexto de contribuir com a construção e reconstrução de patrimônios de Porto Alegre, toma conta de espaços (Auditório Araújo Vianna) e imagens (o boneco símbolo da copa) que deveriam ser públicos, para cercá-los e, com isso, afastar a presença do povo.

Toda a minha vida pude tocar nos tijolos do Araújo Vianna e pude circular livremente POR QUALQUER PEDAÇO DE CHÃO do Largo Glênio Peres. Hoje não posso mais. Cercas impedem meu ir e vir, meu pisar e tocar. E mais, foi construído ali, onde outrora se realizavam férias populares, um chafariz. E um imenso alarme para avisar as pessoas que corram para não se molharem. Esse o tratamento que dão ao povo: serem advertidos que não mais poderão circular no pedaço de chão, pelo qual pagam impostos, por uma sirena.

Perdeu a razão nosso prefeito, o Sr. Fortunati. E não creio que encontre alguém que justifique – explicar até eu explico – tal insensatez.

Como insensatez e perda de razão (juízo) tiveram as pessoas que, de forma vândala, destruíram o patrimônio privado.  Não há razão em querer preservar nosso patrimônio público e, ao mesmo tempo, destruir o patrimônio dos outros, tão somente porque pertencem a multinacionais que patrocinam a Fifa e sua copa. Ter sido estuprado pela Fifa e multinacionais não me autoriza a, usando uma figura, castrá-las. Perdemos não apenas a razão, mas algo de muito mais caro: a civilidade.

E quando multinacionais estupram o povo e prefeitos, como os de Porto Alegre e Salvador – apenas para citar dois exemplos – apoiam tais atos, perdemos nossa soberania!

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